Ler e escrever
06/04/2024 - fluxo de consciência
Aqui vão dois verbos que vivem interligados, talvez mesmo inseparáveis. Dois verbos que são também um privilégio para quem os tem e uma fonte infinita de vida para quem deles não se esquece. Leio porque escrevo, escrevo porque leio. Não sei bem ao certo onde quero chegar com este (por enquanto) curto texto que escrevo na pequena mesa do avião em que viajo. Após uma semana em Zanzibar, sinto uma energia renovada, que reforça o que tenho vindo a praticar nos últimos dois anos. Mais gratidão pelo que tenho, todo um luxo de vida, com tudo o que quero e desejo e tanto de que não preciso. Poderia queixar-me da escala inesperada do meu voo no Kilimanjaro, mas como posso esquecer a sorte que tenho de poder voar e observar esta beleza natural? Retomo após a aterragem, a primeira de 3 ao todo para esta viagem. Sinto um pouco de fome e noto os pensamentos a ficarem perdidos e estancados. Mas a caneta mexe devagar, o hábito da escrita à mão tendo sido pouco a pouco perdido para deixar lugar aos teclados físicos e virtuais.
Voltando aos verbos que iniciaram esta pequena crónica (se é que assim a posso chamar). Sinto-me inspirado para escrever, pois li algo que me fez rir. Não pretendo concretizar o mesmo objetivo, apenas uso o estilo dos outros como inspiração e para me recordar que gosto de escrever. E para alguém que assim admite, talvez nem sequer escreva tanto ou tão frequentemente. À minha volta, toda uma série de línguas por aprender: swahili, chinês, amárico (etíope)… Todas tão diferentes na sua sonoridade, mas que seguem no seu núcleo mais profundo, toda a consciência humana que as criou, daquela língua original que todos entendíamos em anos muito longínquos. E lá sei eu se tal coisa é certa? Não há certezas nem verdades por muito que o mundo as queira impor… Gostaria de poder estudar e de ter mais opções para aprender coisas novas nestes voos longos. Nunca fui muito virado para cinema e prefiro os dois verbos do título do que a sétimo arte. Esta teimosia acaba por ser a cause pela qual desconheço muitos clássicos do cinema e da cultura mais recente. Apesar de tudo o que aqui vai, diria que não sou um escritor nem um leitor acérrimo. Mas tudo isso pouco importa, de nada serve julgar-me a mim próprio sobre isto.
A caneta continua… Disse acima que não há verdades, mas tenho de admitir uma na minha vida. Uma verdade que espero que todos possam aceitar. Para mim, parece impossível admitir o contrário: o único momento que é real, é o momento presente, um momento que nunca podemos capturar. O passado é memória e o futuro não existe ainda, pelo que ficamos apenas com o agora. Um momento efémero, num contínuo de tempo que não pára. Gostamos de reificar pensamentos destes outros tempos que já foram ou que serão, e não prestamos atenção ao único que de verdade temos. Mas perco-me neste devaneio, até ao ponto de não saber qual era a minha intenção original. Penso em fazer uma pausa, mas porque não continuar sem nexo algum? Talvez descubra que tudo se acaba por ligar num final feliz e talvez este texto acaba por ter algum sentido. Pois o que começou como uma “história” sobre dois verbos tornou-se agora num exercício mais profundo de meditação que por ambos é permitido.
Um vídeo sobre a Etiópia interrompe o meu raciocínio com uma ideia interessante. Vale notar que não sabemos ao certo, mas se o primeiro Homo Sapiens originou neste território, de certa forma somos todos daqui. Não diria que somos etíopes, pois ser etíope é apenas uma ideia, tal como é o ser inglês ou português. Esse primeiro Homo Sapiens certamente não teria uma ideia de identidade. Sinto a necessidade de analisar as palavras até ao seu nível mais profundo. Afinal, tudo o que nos rodeia foi por nós criado ou interpretado. Tudo aquilo em que podemos pensar é fundamentalmente um pensamento. Sei que muitas religiões gostariam de me crucificar, mas o conceito de “Deus” é vítima de tudo isto. Tal como a ideia do Ego, de se “ser”. Mas não convido o leitor (se é que há algum), ao desespero e pessimismo, isto não é uma negação de tudo. É apenas uma lente através da qual podemos perceber a nossa constante interpretação do mundo. Ainda assim, aceito a existência da Divindade, Deus, Buddha (ou qualquer outro nome) **nesse espaço entre os pensamentos.
Penso, e escrevo, e o tempo passa. Sinto-me sereno e talvez um pouco desconfortável por estar sentado num espaço reduzido. É fácil voltar a sentir a minha sorte ao pensar em todos os escravos amontoados em Dhows, a caminho de Zanzibar para serem vendidos como animais. Até os próprios animais morriam com mais dignidade que os próprios seres humanos dessa época. Tenho os olhos de retrospectiva, com a minha educação moderna e posso agora condenar o que o Homem fez no passado (e continua a fazer). Não posso eximir as culpas de ser um potencial cúmplice se tivesse nascido nesses tempos… (o virtue signalling está na moda hoje em dia…)
De novo, os hipotéticos não existem… são apenas hipóteses. Vem-me de novo um sono ligeiro e os meus olhos pedem descanso…


